Edição 173

Elevando o setor lácteo brasileiro ao próximo nível

O Brasil vive um momento histórico na produção de leite. Dados do IBGE de 2024 revelam uma transformação notável do setor lácteo brasileiro: o país atingiu a marca de 35,7 bilhões de litros produzidos – o maior volume da série histórica – com uma produtividade recorde de 2.362 litros por vaca/ano, que representam 4,9% de aumento em relação ao ano anterior mesmo com redução de 3,4% no rebanho. Neste contexto, o valor de produção chegou a R$ 87,5 bilhões, representando um crescimento de 9,4% frente ao ano anterior1.

Estes números demonstram uma maturidade crescente do setor, com foco em eficiência e produtividade. Mas, será que ele está preparado para enfrentar os desafios que acompanham este crescimento?

Com uma população em constante expansão e consumidores cada vez mais exigentes quanto à qualidade e segurança dos produtos lácteos, o setor enfrenta uma pressão significativa para garantir que cada gota de leite produzida atenda aos mais altos padrões de qualidade.

A pergunta que deve ser feita é: como é possível transformar este crescimento quantitativo em uma evolução qualitativa que posicione o Brasil como referência em lácteos seguros e sustentáveis?

Produção nacional e desafios de qualidade

Segundo a Secretaria de Política Agrícola do MAPA, o Brasil ocupa atualmente a terceira posição no ranking mundial de produção de leite e possui mais de 1 milhão de propriedades leiteiras2.

Em 2024, a região Sudeste produziu 12,03 bilhões de litros de leite, enquanto os estados da região Sul contribuíram com 11,9 bilhões de litros. Combinadas, essas duas regiões representaram cerca de 67% da produção nacional de leite no ano passado. O Nordeste também se destaca com 6,4 bilhões de litros e um crescimento de 4,5% – evidenciando sua importância estratégica para o setor lácteo brasileiro3. Apesar dos ótimos resultados, sabemos que a crescente produção de leite deve ser acompanhada de rigorosos processos de controle de qualidade. A tendência para os próximos anos é de que apenas os produtores mais eficientes e tecnologicamente adaptados permaneçam ativos no setor até 20304.

Nesse cenário, a iniciativa pública tem se aliado ao setor privado para fomentar a modernização da cadeia leiteira. O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) disponibiliza em sua plataforma digital diversas ferramentas de gestão e programas de incentivo, como:

  • Mais Leite Saudável;
  • Plano Nacional da Qualidade do Leite (PNQL);
  • Plano de Qualificação de Fornecedores de Leite (PQFL).

Além disso, o MAPA é responsável por fiscalizar e padronizar os parâmetros de qualidade do leite no país. Um dos principais indicadores utilizados para essa finalidade é a Contagem de Células Somáticas (CCS).

A CCS está diretamente relacionada à saúde do úbere das vacas, sendo um indicativo da presença de mastite. Níveis elevados de CCS (acima de 500 mil células/mL) comprometem a qualidade físico-química e microbiológica do leite, afetando a concentração de proteínas (principalmente caseína) e minerais, além de interferir negativamente no sabor, textura e vida útil dos produtos lácteos.

As instruções normativas 76/20185 e 77/20186 publicadas pelo MAPA, estabelecem os limites máximos aceitáveis de CCS e propõem estratégias para a sua redução, com foco na segurança alimentar e na padronização da qualidade do leite em todo o território nacional, tornando esse um importante desafio para o setor.

Estudos comprovam que a presença de resíduos de antibióticos utilizados no tratamento dos animais também impactam na produção de lácteos. Em iogurtes, Kosikowski e Mocquiot (1958) observaram que concentrações de 0,01 a 0,05 UI/ml de penicilina no leite inibiram o crescimento de Streptococcus thermophilus, enquanto Lactobacillus bulgaricus demonstrou maior resistência, tolerando concentrações de 0,30 a 0,60 UI/ml. Jacquet (1953) relatou que a presença de 0,02 UI/ml de penicilina no leite retardou a acidificação láctica. Anifantakis (1982) avaliou que concentrações de 0,015 a 0,05 UI/ml de penicilina, 0,3 a 1,0 mg/ml de clortetraciclina e oxitetraciclina, e 5 a 7 mg/ml de estreptomicina interferiram significativamente na produção de iogurte.

Já na produção de queijos, Bradfield (1950) comprovou que queijos fabricados com leite bovino em presença de antimicrobianos, no final do processo apresentavam sabor anormal, sem textura e muito frágeis.

Demanda do consumidor por qualidade superior

Com 213,4 milhões de habitantes7 e enorme diversidade produtiva, o Brasil representa hoje um dos principais polos de influência em alimentação e bem-estar. Em um cenário constante de transformações comportamentais, o consumidor brasileiro torna-se cada vez mais informado, exigente e atento ao impacto de suas escolhas. Entre as novas gerações, especialmente Millenials e Geração Z, alimentação saudável tornou-se parte da identidade pessoal e uma forma de autocuidado. Hoje, valor não se mede apenas pelo preço, mas pela combinação entre confiança, nutrição, transparência e impacto positivo8, aspectos importantes que podem ser traduzidos para o setor de lácteos em:

  • Segurança alimentar: Produtos livres de contaminantes e resíduos
  • Qualidade nutricional superior: Manter as propriedades naturais e benefícios intrínsecos do leite
  • Transparência na cadeia produtiva: Rastreabilidade desde a fazenda até a mesa
  • Sustentabilidade ambiental: Processos que minimizam o impacto ecológico

Dessa forma, os pontos acima deixam de ser um diferencial competitivo e passam a ser requisitos básicos, fazendo parte do próprio conceito moderno de qualidade.

Sustentabilidade como conceito de qualidade

Como mencionado, a percepção de valor passa a estar ligada à forma como o produto é produzido. Cada vez mais, o consumidor associa qualidade à sustentabilidade e busca empresas que respeitem o meio ambiente, utilizem recursos de forma eficiente e garantam o bem-estar animal. Para esse novo consumidor, um leite de qualidade é aquele que nutre sem comprometer o futuro do planeta.

Globalmente, centenas de milhões de litros de leite são descartados anualmente devido a testes positivos para resíduos de antibióticos. No Brasil, este problema assume proporções ainda mais críticas, considerando o tamanho continental do país, a logística complexa, a diversidade de sistemas produtivos – que vão desde pequenas propriedades familiares até grandes operações industriais – e a necessidade de controle rigoroso para atender mercados internacionais exigentes.

O descarte de leite contaminado representa impactos importantes econômicos, como: perdas financeiras diretas para produtores e laticínios, interrupção da cadeia produtiva e custos adicionais de reprocessamento e logística. Além disso, há impactos ambientais: cada litro de leite descartado representa entre 0,7 e 6 kg CO2 de emissões evitáveis9, desperdício de recursos naturais utilizados na produção e maior pressão sobre sistemas de tratamento de efluentes.

Neste contexto, práticas que reduzem emissões de gases de efeito estufa (GEE), reaproveitam resíduos e adotam métodos regenerativos fortalecem a relação com o público. Com a temática de sustentabilidade em alta, a indústria de lácteos tem uma oportunidade significativa de demonstrar seu compromisso ao adotar inovações e tecnologias que contribuam para o alcance das metas climáticas globais.

Boas práticas e inovações tecnológicas

Como a cadeia leiteira pode responder a esses desafios e demandas? A melhoria da qualidade do leite exige a adoção de boas práticas agropecuárias, tais como:

  • Isolamento e tratamento adequado de animais doentes;
  • Cumprimento dos períodos de carência para antibióticos;
  • Monitoramento da ordenha e higiene;
  • Adoção de tecnologias de rastreamento e controle de resíduos.

A utilização de testes rápidos para detecção de resíduos de antibióticos, aflatoxinas e adulterantes tem ganhado espaço nas fazendas e laticínios. A adoção de tecnologia de rastreamento e controle de resíduos garante maior controle sanitário e atende às exigências legais, como o Artigo 33 da IN 77, que obriga a análise de resíduos de produtos veterinários no leite transportado em tanques ou latões.

Eleve o nível dos seus testes de leite

Além do portfólio referência já estabelecido sob a marca MilkSafe™, em outubro de 2025 a Novonesis anunciou sua parceria com a Bioeasy, especialista em tecnologia de kits de teste rápido para segurança alimentar, com o objetivo de expandir possiblidades para o mercado. Essa colaboração une a expertise de ponta da Bioeasy no desenvolvimento de soluções inovadoras de testes voltados para o setor de lácteos com o nosso compromisso com a eficiência e qualidade de alto nível.

A indústria pode contar com os mesmos produtos confiáveis da Bioeasy, agora respaldados pela expertise e pelo poder de distribuição da Novonesis. Seja seu objetivo aprimorar a conformidade regulatória, minimizar desperdícios, otimizar operações ou melhorar a precisão dos testes, nossas soluções ampliadas atendem às suas necessidades. Juntos, estamos tornando ainda mais fácil garantir a qualidade e a segurança do leite.

O que MilkSafe™ Web Service pode fazer por você?


Mobilidade e conectividade

Testes de antibióticos, aflatoxinas e adulterantes no leite podem ser feitos na fazenda, no caminhão ou no laticínio. MilkSafeTM Web Service armazena seus registros com segurança e em perfeitas condições.

Gerência de dados

MilkSafe™ Web Service é sua ferramenta de gerenciamento e análise de dados conveniente e fácil de usar, que acompanha os registros históricos de testes.

Garantia de qualidade

Esteja sempre pronto para a auditoria usando o monitoramento em tempo real de testes de antibióticos, aflatoxinas e adulterantes. O serviço notifica você quando ocorre algum resultado de teste positivo.

Aprendizagem

O painel de análise fornece informações valiosas sobre quais antibióticos são mais preocupantes, onde aparecem na cadeia de valor e quem consultar para obter mais informações.

RegiõesFamília de antibióticoAntibióticos disponíveis no mercado
SudesteBeta-lactâmicos (penicilinas, cefalosporinas)Amoxicilinas, Ceftiofur (injeção para mastite)
TetraciclinasOxitetraciclinas (injetável)
MacrolídeosTilosina (uso off-label sob prescrição)
SulBeta-lactâmicosAmpicilina
TetraciclinasOxitetraciclina
AminoglicosídeosGentamicina
Centro-OesteTetraciclinasSulfadimetoxina + trimetoprim
SulfonamidasOxitetraciclina
NordestePenicilinasProcaína penicilina
MacrolídeosTilosina
NorteTetraciclinasOxitetraciclina
SulfonamidasSulfametoxazol+trimetoprim

Próximo nível em lácteos

A combinação entre escala e inovação posiciona o Brasil entre os mercados mais relevantes para o avanço de lácteos de qualidade superior. O setor entra em uma nova fase guiada por ciência, transparência e sustentabilidade, na qual qualidade passa a ser compromisso.

Com a indústria de lácteos mudando mais do que nunca, a Novonesis entende que este é o momento dos produtores levarem os lácteos ao próximo nível ao desenvolverem produtos que as pessoas amam, moldarem o futuro desse segmento enquanto acompanham as transformações do mercado e obterem mais dos seus recursos disponíveis.

O que há de novo

Portfólio ampliado para cada etapa da cadeia de valor do leite: Acesse uma ampla gama de soluções avançadas de teste para antibióticos, aflatoxinas e adulteração do leite. Com opções nos formatos de tira ou cassete, esses testes são ideais para fazendas, caminhões e pontos de recepção de leite. Essa oferta ampliada permite acesso às soluções de teste mais completas para a triagem de uma maior variedade de contaminantes em leite cru ou processado. Além das nossas linhas de produtos MilkSafe™ e Bioeasy, também forneceremos testes de tiras de temperatura ambiente sob a marca Anieasy.

Suporte técnico especializado: Nossos especialistas em aplicações estão preparados para apoiar os clientes, oferecendo assistência rápida e prática para as dúvidas sobre testes.

Documentação e rastreabilidade de próximo nível: Aproveite o MilkSafe™ Web Service da Novonesis para testes digitais sem complicações – com documentação superior, análise otimizada e acesso instantâneo a resultados sempre disponíveis para maior rastreabilidade, soma-se a inovação 4.0, garantindo mais controle na cadeia leiteira com dados consistentes e segurança cibernética das informações e resultados armazenados em nuvem.

Integração perfeita: MilkSafe™ Web Service integra-se com qualquer sistema LIMS ou ERP por meio de uma API aberta. Ele salva e armazena continuamente todos os resultados de seus testes em tempo real, oferecendo também a flexibilidade de determinar quando, onde e quais dados você deseja integrar.

Resultados mais rápidos: Obtenha resultados com maior agilidade para todos os grupos de antibióticos usados com mais frequência. O tempo de incubação varia de 3-4min para testes em cassetes e 5-10 minutos para tiras. Os limites de resíduos estão em conformidade com os LMR da UE.

Fácil de usar: Os testes permitem obter resultados em uma única etapa, aplicando o leite com ou sem incubador, além da flexibilidade ao combinar vários medicamentos em um único teste.

Validação externa bem-sucedida: Testes validados pelo ILVO – Instituto de Pesquisa de Agricultura, Pesca e Alimentação de Flandres.

Fontes

  1. IBGE: Pesquisa Pecuária Municipal (PPM), 2025
  2. MAPA, 2024
  3. IBGE, 2024
  4. MAPA, 2024
  5. IN N°76/2018: Aprova os Regulamentos Técnicos que fixam a identidade e as características de qualidade que devem apresentar o leite cru refrigerado, o leite pasteurizado e o leite pasteurizado tipo A.
  6. IN N°77/2018: Estabelece os critérios e procedimentos para a produção, acondicionamento, conservação, transporte, seleção e recepção do leite cru em estabelecimentos registrados no serviço de inspeção oficial
  7. IBGE, 2025
  8. Mintel: Tendências 2025 LATAM em alimentos e bebidas
  9. Journal of Dairy Science Vol. 105 No. 12, 2022

HA-LA BIOTEC

Produção trimestral da Novonesis

Autores: Felipe Carneiro e Raquel Chiliz
Coordenação e edição: Raquel Chiliz
Consultoria: Michael Mitsuo Saito, Lúcio Antunes, Diego Mallmann e Fulvia Longo
Editoração: Cia da Concepção

As informações aqui fornecidas são apenas para fins de informação geral. Todas as informações são fornecidas de boa-fé. Nenhuma garantia está sendo estendida e nenhuma responsabilidade (incluindo, sem limitação, quaisquer danos diretos ou indiretos por lucros cessantes ou interrupção de negócios) é aceita quanto à sua precisão, integridade, exatidão, não violação, comercialização ou adequação a uma finalidade específica. O(s) produto(s) pode(m) estar coberto(s) por patentes pendentes ou emitidas, marcas, registradas ou não, ou direitos de propriedade intelectual similares.

Read More

Edição 172 Home

Produtos lácteos frescos
Biociência e biossoluções

Na última edição abordamos os possíveis impactos na qualidade de lácteos fermentados, como o iogurte e a bebida láctea, decorrentes das recentes alterações no Regulamento Técnico de Identidade e Qualidade (RTIQ) para bebidas lácteas, conforme a Portaria SDA/MAPA 1.174 de 3 de setembro de 2024, que traz padronizações e novos parâmetros para composição desses produtos e a Instrução Normativa (IN) 211 de 1 de março de 2023, que estabelece as funções tecnológicas, os limites máximos e as condições de uso para aditivos alimentares e coadjuvantes de tecnologia autorizados para uso em alimentos. Recentemente, devido às dificuldades técnicas para adequação dos novos limites, a Portaria SDA/MAPA 1.174 de 3 de setembro de 2024 que entraria em vigor em outubro de 2025 foi postergada para junho de 2026.

Nesta edição vamos compreender as implicações tecnológicas das alterações regulatórias entendendo os fatores que contribuem para a formação da rede proteica, bem como os mecanismos que podem ser utilizados para bioproteção.

Edição 172

Produtos lácteos frescos

Biociência e biossoluções

Na última edição abordamos os possíveis impactos na qualidade de lácteos fermentados, como o iogurte e a bebida láctea, decorrentes das recentes alterações no Regulamento Técnico de Identidade e Qualidade (RTIQ) para bebidas lácteas, conforme a Portaria SDA/MAPA 1.174 de 3 de setembro de 2024, que traz padronizações e novos parâmetros para composição desses produtos e a Instrução Normativa (IN) 211 de 1 de março de 2023, que estabelece as funções tecnológicas, os limites máximos e as condições de uso para aditivos alimentares e coadjuvantes de tecnologia autorizados para uso em alimentos. Recentemente, devido às dificuldades técnicas para adequação dos novos limites, a Portaria SDA/MAPA 1.174 de 3 de setembro de 2024 que entraria em vigor em outubro de 2025 foi postergada para junho de 2026.

Nesta edição vamos compreender as implicações tecnológicas das alterações regulatórias entendendo os fatores que contribuem para a formação da rede proteica, bem como os mecanismos que podem ser utilizados para bioproteção.

Formação da estrutura de gel em produtos lácteos fermentados

No processo de transformação do leite em iogurte ou bebida láctea fermentada é necessário desestabilizar as proteínas contidas na base para que se forme uma coalhada láctea, dando origem ao produto.

O leite é composto por aproximadamente 3,5% de proteínas, podendo variar de acordo com a raça e alimentação do animal, além de fatores geográficos e climáticos. No Brasil, por exemplo, o conteúdo médio varia entre 3,1 e 3,2%. As proteínas presentes no leite são divididas em dois grandes grupos: 80% representado pelas caseínas e 20% correspondente às proteínas de soro.

O grupo das caseínas é composto pelas frações proteicas αs1, αs2, β e κ-caseína, que se associam através de minerais — especialmente cálcio e fósforo — para formar as micelas de caseína, estruturas esféricas e coloidais de maior estabilidade. O interior dessas micelas é predominantemente hidrofóbico, sendo constituído principalmente por αs1, αs2 e β-caseína; enquanto a κ-caseína se concentra majoritariamente na superfície, conferindo estabilidade à estrutura.

Estrutura da micela de caseína

Estabilização das micelas de caseína

A fração κ-caseína possui regiões polares e apolares, sendo essencial para a estabilidade das micelas no leite. A parte hidrofóbica interage com as demais frações de caseína que estão no interior da micela enquanto a parte C-terminal, que possui característica hidrofílica, se projeta da superfície micelar. Estas interações permitem que a caseína se mantenha dispersa no leite mesmo com baixa solubilidade.

A parte externa da micela, devido à afinidade com a água, contribui para a formação de uma camada de hidratação ao redor da micela, que é fundamental para a estabilidade coloidal. Além disso, é responsável por causar repulsão estérica e promover a repulsão eletrostática entre si, devido às cargas negativas presentes nessa estrutura. Estas interações proporcionam a estabilidade completa das micelas nativas contra agregação em condições fisiológicas, ou seja, em pH natural do leite – entre 6,6 e 6,8.

Considerando que as caseínas são termoresistentes, a via para desestabilização das mesmas ocorre através do abaixamento de pH durante a etapa de fermentação. Na produção de iogurtes e bebidas lácteas fermentadas, as bactérias inoculadas via cultivo utilizam a lactose como substrato para crescimento e liberam ácido láctico, que resulta no decaimento do pH. O ácido lático libera prótons de hidrogênio no meio, que neutralizam a carga negativa contida na superfície das micelas de caseína. A agregação da caseína ocorre à medida que o ponto isoelétrico (pH ∼4,6) se aproxima, devido à redução da carga superficial, formando, assim, a rede proteica.

Solubilidade da caseína

Em função do pH

Já as proteínas do soro, representadas pelas frações β-lactoglobulina, α-lactoalbumina, albumina do soro e imunoglobulinas, não se precipitam em seu ponto isoelétrico. Em vez disso, são desnaturadas principalmente pelo calor, como ocorre durante o tratamento térmico aplicado na pasteurização.

No processo de fabricação de iogurtes e bebidas lácteas fermentadas, destaca-se a β-lactoglobulina, que corresponde a cerca de 54% das proteínas do soro, sendo a principal fração proteica do leite nesse grupo. A desnaturação da β-lactoglobulina tem início com o aquecimento do leite a 60°C, tornando-se quase completa quando submetida a 90°C por 5 minutos, como pode ser observado no gráfico 1, a seguir. Durante esse processo, ocorre a abertura da estrutura nativa da proteína, expondo o grupo tiol (-SH), anteriormente localizado no interior da molécula, o que permite sua interação com as micelas de caseína.

Desnaturação da proteína

Exposição do grupo tiol (-SH)

Gráfico 1

Percentual de Desnaturação da β-lactoglobulina

De acordo com o tratamento térmico (tempo x temperatura)

As reações de associação entre as frações de β-lactoglobulina e a κ-caseína por meio da formação de pontes de dissulfeto promovem a modificação da estrutura das micelas de caseína e levam à formação de uma rede proteica mais firme e estável, contribuindo para a redução da sinérese e o aumento da viscosidade.

Quanto maior a relação caseína/β-lactoglobulina, ou seja, quanto maior a proporção de leite em relação ao soro, melhor será a firmeza e a estrutura do gel, resultando em uma textura superior do produto. Isso ocorre porque a caseína é a principal responsável pela formação da rede proteica. Já as proteínas do soro, como a β-lactoglobulina, isoladamente, não possuem capacidade de formar gel. Devido a estas características há um grande desafio em obter a formação da textura esperada para bebida láctea fermentada, principalmente nas versões colheráveis, pois com a substituição do leite por soro de leite na formulação destes produtos, a relação caseína/β-lactoglobulina torna-se muito baixa, impactando diretamente na firmeza, na estruturação do gel e na retenção de água dentro da rede proteica. Com as novas exigências para esta categoria, regulamentando a diminuição de amido e, ao mesmo tempo, visando manter uma opção de custo mais acessível ao consumidor, se faz necessário utilizar uma combinação de soluções que proporcionem ao produto ganho de textura, além de estabilidade durante o prazo de validade.

A Novonesis tem em seu portfólio a nova geração de cultivos YoFlex® Premium, que agrega textura à bebida láctea fermentada através da elevada formação de exopolissacarídeos exocelulares (EPS) durante o processo fermentativo por meio da combinação de cepas específicas nos cultivos, apresentando excelente performance mesmo em bases com baixa proporção entre caseína e β-lactoglobulina.

Exopolissacarídeos são açúcares complexos, formados por unidades repetitivas de monossacarídeos, produzidos e secretados por microrganismos, que atuam como espessantes naturais, complementando a matriz proteica, favorecendo o incremento de textura e a redução da sinérese. Estes compostos combinam naturalmente alta consistência na boca, firmeza de gel e redução de sinérese, pois podem tanto interagir com as proteínas da rede proteica, como gelificar os poros de soro da coalhada.

A Novonesis segue trabalhando para entender as diferenças entre os EPS e como afetam exclusivamente a textura e estabilidade dos produtos lácteos fermentados, seja investigando a genética, biossíntese, regulação, estrutura ou interação na matriz do produto. Todas as possibilidades são exploradas para garantir o melhor resultado possível.

Tipos de Exopolissacarídeos

Cultivos bioprotetores FreshQ®

A fermentação é um método ancestral de preservação de alimentos utilizado até hoje. No entanto, os cultivos bioprotetores FreshQ® não apresentam propriedades de matriz fermentativa, são bactérias láticas especialmente selecionadas que, quando utilizadas na fermentação, ajudam a proteger os produtos lácteos contra a deterioração causada por bolores e leveduras, melhorando sua qualidade.

A vida útil dos produtos lácteos fermentados pode ser limitada por diferentes fatores e, às vezes, até mais de um fator ao mesmo tempo, como:

  • A deterioração fúngica pode tornar-se visível através do crescimento de bolores e pode ocorrer o estufamento das embalagens devido à formação de gás por leveduras.
  • Os produtos podem apresentar alterações de sabor causadas por baixos níveis de leveduras.
  • Os produtos podem tornar-se mais ácidos, o que pode levar a alterações dos parâmetros sensoriais e desestabilização da base.

FreshQ® pode contribuir para a vida útil do produto em relação a vários desses fatores, pois além da alta capacidade antifúngica contra bolores e leveduras, o impacto nos atributos sensoriais do produto e pós-acidificação são muito baixos.

O mecanismo de ação dessa linha de cultivos é pautado em biociência. A Novonesis descobriu que a competição por manganês é um mecanismo bioprotetor primário, pois se trata de um mineral limitado e presente naturalmente no leite, essencial para o crescimento de bolores e leveduras. As cepas que compõem a cultura FreshQ® contêm um transportador específico que acumula manganês intracelular em concentrações elevadas, diminuindo o substrato disponível para o crescimento dos contaminantes e protegendo naturalmente o produto.

Os cultivos podem ser aplicados tanto em formulações sem adição de conservantes, como também em combinação com sorbato de potássio, protegendo os produtos durante o tempo de vida útil mesmo com as recentes mudanças na legislação para redução deste aditivo em preparados de fruta – fator que impacta diretamente na conservação dos lácteos fermentados frescos.

HA-LA BIOTEC

Produção trimestral da Novonesis

Autora: Natália Góes
Coordenação e Edição: Raquel Chiliz
Consultoria: Michael Mitsuo Saito e Lúcio Antunes
Editoração:
Cia da Concepção

As informações aqui fornecidas são apenas para fins de informação geral. Todas as informações são fornecidas de boa-fé. Nenhuma garantia está sendo estendida e nenhuma responsabilidade (incluindo, sem limitação, quaisquer danos diretos ou indiretos por lucros cessantes ou interrupção de negócios) é aceita quanto à sua precisão, integridade, exatidão, não violação, comercialização ou adequação a uma finalidade específica. O(s) produto(s) pode(m) estar coberto(s) por patentes pendentes ou emitidas, marcas, registradas ou não, ou direitos de propriedade intelectual similares.

Read More

Edição 171 Home

Produtos lácteos fermentados
Mudanças legislativas e seus impactos tecnológicos

Nos últimos anos, a indústria de alimentos no Brasil tem enfrentado atualizações regulatórias significativas que têm estabelecido diretrizes mais rigorosas para a padronização, qualidade e segurança de diversos produtos alimentícios. Entre elas, destacam-se as mudanças no Regulamento Técnico de Identidade e Qualidade (RTIQ) para bebidas lácteas, conforme a Portaria SDA/MAPA 1.174 de 3 de setembro de 2024, que traz padronizações e novos parâmetros para composição de bebidas lácteas fermentadas e a Instrução Normativa (IN) 211 de 1 de março de 2023, que estabelece as funções tecnológicas, os limites máximos e as condições de uso para aditivos alimentares e coadjuvantes de tecnologia autorizados para uso em alimentos.

Edição 171

Produtos lácteos fermentados

Mudanças legislativas e seus impactos tecnológicos

Nos últimos anos, a indústria de alimentos no Brasil tem enfrentado atualizações regulatórias significativas que têm estabelecido diretrizes mais rigorosas para a padronização, qualidade e segurança de diversos produtos alimentícios. Entre elas, destacam-se as mudanças no Regulamento Técnico de Identidade e Qualidade (RTIQ) para bebidas lácteas, conforme a Portaria SDA/MAPA 1.174 de 3 de setembro de 2024, que traz padronizações e novos parâmetros para composição de bebidas lácteas fermentadas e a Instrução Normativa (IN) 211 de 1 de março de 2023, que estabelece as funções tecnológicas, os limites máximos e as condições de uso para aditivos alimentares e coadjuvantes de tecnologia autorizados para uso em alimentos.

A Portaria 1.174 introduz duas grandes mudanças para os produtores de bebidas lácteas fermentadas:

  1. Proibição da adição direta de sorbato de potássio na base láctea, permitindo seu uso apenas via preparado de frutas, conforme o princípio de transferência (Art. 10 da RDC 778 de 2023).
  2. Limitação da adição de amido a 1% (g/100g) no produto final, impactando diretamente aspectos tecnológicos do produto, como: viscosidade, estabilidade coloidal, comportamento ao escoamento e interações entre ingredientes.

A IN 211 tem o objetivo de definir limites máximos e condições de uso para aditivos, assegurando padrões modernos de qualidade e segurança alimentar. No entanto, a redução do teor permitido de conservantes em algumas categorias, como os preparados de frutas, impõe desafios à preservação microbiológica e à vida útil dos produtos, exigindo a adoção de alternativas tecnológicas eficazes.

Diferença de textura em uma bebida láctea

Análise reológica

Bebida láctea formulada com 1,50% de proteína e 1,0% de gordura com variação no teor de amido (Curva preta: 3% de amido | Curva azul, cinza e vermelha: 1% de amido)

Impacto tecnológico da limitação de amido

A bebida láctea fermentada é obtida pela mistura de leite e soro de leite, sendo fermentada por culturas de microrganismos específicos seguindo um processo produtivo similar ao iogurte. De acordo com a Portaria SDA/MAPA 1.174/2024, os constituintes lácteos da bebida láctea devem representar mais de 50% (m/m) da massa total dos ingredientes e o teor mínimo de proteína no produto final deve ser de 1% (g/100g). O baixo teor proteico aliado ao alto conteúdo de soro de leite compromete a estabilidade e a textura do produto.

A formação da estrutura de gel nos produtos lácteos fermentados depende basicamente do equilíbrio entre a caseína e as proteínas do soro, além da produção de exopolissacarídeos (EPS) por bactérias ácido-láticas durante a fermentação. A caseína, principal responsável pela formação do gel, é presente no produto na forma de micelas que interagem entre si e com as proteínas do soro desnaturadas, criando uma matriz proteica coesa.

Um tratamento térmico eficiente desnatura as proteínas do soro auxiliando sua interação com as micelas de caseína, melhorando a rede proteica.

Os exopolissacarídeos atuam como espessantes naturais, favorecendo a retenção de água e aprimorando a textura do produto. Sua ação é fundamental para complementar a matriz proteica, promovendo viscosidade adequada e experiência sensorial mais agradável. No entanto, a elevada presença de soro de leite em bebidas lácteas reduz a proporção entre caseína e proteínas do soro, o que dificulta a formação da matriz proteica e aumenta a predisposição à sinérese (separação do soro). Nesse contexto, torna-se essencial o uso de espessantes e/ou estabilizantes para auxiliar na formação e estabilidade da estrutura do gel lácteo.

Processo produtivo tradicional de uma bebida láctea

Desnaturação de proteínas do soro

A importância dos estabilizantes em bebidas lácteas fermentadas

A restrição de 1% de amido imposta pela Portaria SDA/MAPA 1.174/2024 representa um desafio tecnológico significativo, uma vez que o teor praticado pela indústria atualmente está entre 1,8% e 3% (g/100g). O amido é amplamente utilizado como estabilizante devido à sua capacidade de aumentar a viscosidade, reduzir a sinérese e conferir textura cremosa. Com essa limitação, fabricantes precisarão reformular os produtos desta categoria que possuam mais de 1% (g/100g) de amido. Além de otimizar a ação dos exopolissacarídeos (EPS), por meio de novas culturas, reformulações e/ou adequações de processo, os produtores também deverão fazer uso de tecnologias combinadas, como: gelatina, gomas, pectina ou, em casos mais extremos, aumentar o teor de proteína para manter as mesmas características reológicas e sensoriais do produto. Essas adaptações serão fundamentais para garantir a estabilidade e a aceitação, equilibrando custo, funcionalidade e conformidade regulatória.

Estabilizantes na formação da estrutura do gel lácteo

Viscosidade
Alguns ajustes serão necessários para garantir sempre uma textura consistente e uniforme.

Estabilidade coloidal
A redução do amido pode levar à separação de fases, exigindo melhorias no processo e na formulação.

Comportamento no escoamento
Alterações no fluxo do produto afetam o processamento e a experiência do consumidor.

Interações entre ingredientes
O amido influencia a relação entre componentes, afetando as propriedades sensoriais e reológicas.

Influência de estabilizantes no perfil sensorial e funcional

Amido
Espessante e estabilizador, dá cremosidade e reduz a sinérese.

Gelatina
Formação de estrutura de gel, melhorando corpo e estabilidade.

Gomas
Fibras solúveis que aumentam a viscosidade e a estabilidade.

Pectina
Fibra solúvel com po- der gelificante, estabilizante e espessante.

Adequação do sorbato em preparados de frutas

A adequação do teor de sorbato em preparados de frutas é um ponto crítico para a indústria de lácteos, especialmente na produção de iogurtes e bebidas lácteas fermentadas. O sorbato de potássio atua como conservante, retardando o crescimento de mofos e leveduras, contribuindo para a estabilidade microbiológica dos produtos. Com a IN 211, o limite de sorbato nos preparados de frutas utilizados em iogurtes e bebidas lácteas foi reduzido para 1500 ppm, enquanto o limite permitido no produto final continua sendo de 300 ppm, proveniente exclusivamente do preparado de frutas.

A nova RTIQ de bebidas lácteas também começa a utilizar o princípio de transferência, não sendo mais permitida a adição direta de sorbato de potássio no produto. No entanto, para se atingir 300 ppm no produto final, seria necessário utilizar aproximadamente 20% de preparado de frutas na formulação, um percentual inviável para a maioria das indústrias devido às limitações operacionais e à complexidade do processo produtivo. Atualmente, a inclusão típica de 2% a 5% de preparado de frutas resulta em concentrações de sorbato entre 30 e 75 ppm, enquanto o USDA (2002) recomenda um mínimo de 100 ppm para garantir efeito conservante adequado.

A redução do teor de sorbato nos preparados impõe desafios à conservação microbiológica dos produtos, exigindo alternativas como o aumento da inclusão de preparado de frutas, adoção de tecnologias de processamento mais eficazes, uso de embalagens com barreiras aprimoradas ou conservantes naturais. Entre essas soluções, a bioproteção por meio de culturas fermentativas específicas, como a linha FreshQ® da Novonesis, torna-se uma opção viável, rápida e eficiente para inibir microrganismos indesejados, preservando a qualidade sensorial e a segurança dos produtos lácteos.

Bioproteção por meio de culturas fermentativas específicas

Incluir FreshQ® na fermentação reduz a necessidade do uso de ingredientes artificiais indesejados

Iogurte fermentado com ou sem adição de FreshQ® (leite 100U/T) e sorbato, com adição de P. carneum ou P. roqueforti (500 esporos) e armazenado a 7°C por 30 dias

Leia mais

Mais informações sobre bioproteção estão nas edições 137 e 156 do Ha-La Biotec, disponíveis neste site ou com nossas equipes comercial e técnica.

HA-LA BIOTEC

Produção trimestral da Novonesis

Autor: Luan Rodrigo Marciano
Coordenação e Edição: Raquel Chiliz
Consultoria: Michael M. Saito e Lúcio A. F. Antunes
Editoração: Cia da Concepção

DISTRIBUIDORES AUTORIZADOS

Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Mato Grosso do Sul: LC Bolonha Ingredientes Alimentícios Ltda. Tel. (41) 3139-4455 (bolonha@lcbolonha.com.br). Bahia, Minas Gerais, Espírito Santo e Rio de Janeiro: Produtos Macalé. Tel. (32) 3224-3035 (macale@macale.com). Goiás, Tocantins, Distrito Federal, Mato Grosso, Rondônia e Pará: Clamalu Comércio e Representações Ltda. Tel. (62) 3605-6565 (romulo@clamalu.com.br e j.clareth@clamalu.com.br). Alagoas, Ceará, Maranhão, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte e Sergipe: Latec NE Ingredientes. Tel. (82) 98787-6564 (atendimentone@latecingredientes.com.br) São Paulo, Amazonas, Roraima, Acre: Latec Ingredientes. Tel. (15) 3202-1017 e (15) 98180-0002 (atendimento@latecingredientes.com.br).

Este informativo é uma comunicação entre empresas sobre ingredientes destinados a bens de consumo. Não se destina a consumidores de bens de consumo final. As declarações aqui contidas não são avaliadas pelas autoridades locais. Quaisquer afirmações feitas em relação a consumidores são de exclusiva responsabilidade do comerciante do produto final. O comerciante deve conduzir suas próprias investigações legais e de adequação para garantir que todos os requisitos nacionais sejam seguidos.

Read More

Banner

Edição 170 Home

Defeitos mais comuns em queijos | Parte 2

Analisar os principais defeitos em queijos fatiados é essencial para a indústria de lácteos, especialmente devido ao crescimento significativo deste formato de consumo no mercado brasileiro – único a registrar aumento no volume de vendas nos últimos anos, com uma taxa de crescimento anual de 3% –, impulsionado principalmente pela demanda por Muçarela. Nesta edição, serão abordados os principais defeitos encontrados em queijos fatiados, com ênfase nos impactos sobre a produtividade e no comprometimento das características visuais e estruturais do produto final.

Siga-nos nas redes sociais